Humberto Maturana e as bases biológicas da compreensão humana

Todo educador deveria conhecer o pensamento de Humberto Maturana. Boa parte da sua vasta obra, ou do que se escreveu sobre ela, está disponível na internet, sejam livros, textos diversos ou entrevistas.

A maior relevância em conhecer Humberto Maturana está na sua forma como ele nos ajuda a conhecer o mundo. Para ele, a vida é um processo de conhecimento e se quisermos entendê-la é necessário compreender como os seres humanos conhecem o mundo. Essa ideia, concebida por ele e o seu discípulo Francisco Varela, é conhecida por biologia da cognição. O livro “A árvore do conhecimento”, de Maturana e Varela, traz as bases biológicas da compreensão humana.

Na biologia da cognição é aplicada o princípio de auto-organização dos seres vivos e o conceito de autopoiese, que é a qualidade de um sistema capaz de se reproduzir e se manter.

Como poucos, Maturana nos ensina a pensar de forma complexa, olhando para o todo e para as partes ao mesmo tempo. A olhar o indivíduo na sua totalidade e no contexto social em que vivemos. Vivemos no mundo e fazemos parte dele; compartilhamos com outros seres vivos o processo vital.[1] Para Maturana, o mundo não é pré-dado e nós o construímos ao longo da nossa interação ele. Fazemos o mundo que vivemos em nosso viver. O mundo surge conosco e ele também nos constrói no decorrer dessa viagem comum.

Humberto Maturana e a Educação

O pensamento de Humberto Maturana, expresso na sua vasta obra, tem especial interesse aos educadores. Para Humberto Maturana, a formação humana deve ser o fundamento de todo o processo educativo. Só com a formação humana podemos viver como seres responsáveis e livres, capazes de aprender, de cooperar, de possuir comportamento ético, capaz de ver, de errar, de refletir, de relacionar. A nossa existência é relacional e a formação humana deve ser capaz de, perante outros seres humanos,  relacionarmos mediante atos responsáveis a partir da nossa consciência social.

O que é educar para Maturana? Para ele a visão do fenômeno da aprendizagem é bem simples. “[…] eu lhes digo que educar é uma coisa muito simples: é configurar um espaço de convivência desejável para o outro, de forma que eu e o outro possamos fluir no conviver de uma certa maneira particular. Eu lhes respondo que quando se consegue que o outro, a criança, o jovem, aceitem o convite á convivência, educar não custa nenhum esforço para se viver.” (Maturana, 1993, p. 32)

Humberto Maturana e a autopoiese

Humberto Maturana Romesin (1928 -) é um neurobiólogo chileno, criador da teoria da autopoiese e da biologia do conhecer. Em 1972, Maturana e seu aluno Francisco Varela definiram a autopoiese, que é a qualidade de um sistema capaz de se reproduzir e se manter.

Essa definição foi tão importante para a humanidade que a noção de autopoiese não pertence mais somente à biologia. Diversos pesquisadores transpuseram o conceito de autopoiese para além das ciências biológicas e passou a ser utilizado para investigar a realidade e os fenômenos de forma geral. É utilizado nos mais diversos campos do conhecimento humano, como o direito, a antropologia, a sociologia, a ciência política, a medicina e muito mais.

Falaremos mais sobre autopoiese e desenvolveremos melhor os conceitos aqui mencionados em outros posts.

Biologia do amor

Maturana desenvolveu a ideia de biologia do amor, muito importante para educadores e epistemólogos.

Apenas para ilustrar, segue este brilhante trecho do livro “A Árvore do Conhecimento” sobre o amor.

“…o amor ou, se não quisermos usar uma palavra tão forte, a aceitação do outro junto a nós na convivência, é o fundamento biológico do fenômeno social. Sem amor, sem aceitação do outro junto a nós, não há socialização, e sem esta não há humanidade. Qualquer coisa que destrua ou limite a aceitação do outro, desde a competição até a posse da verdade, passando pela certeza ideológica, destrói ou limita o acontecimento do fenômeno social. Portanto, destrói também o ser humano, porque elimina o processo biológico que o gera. Não nos enganemos. Não estamos moralizando nem fazendo fazendo aqui uma prédica do amor. Só estamos destacando o fato de que biologicamente, sem amor, sem aceitação do outro, não há fenômeno social. Se ainda se convive assim vive-se hipocritamente, na indiferença ou na negação ativa.

Descartar o amor como fundamento biológico do social, bem como as implicações éticas dessa dinâmica, seria desconhecer tudo o que nossa história de seres vivos de mais de três bilhões e meios de anos nos diz e nos legou. Não prestar atenção ao fato de que todo conhecer é um fazer, não perceber a identidade entre ação e conhecimento, não ver que todo ato humano, ao construir um mundo na linguagem, tem um caráter ético porque ocorre no domínio social – tudo isso é igual a não permitir-se ver que as maçãs caem para baixo.” (Maturana, 2001, pag. 269/270)

Aprendizagem interativa

Maturana nos trouxe o conceito do aprender como fenômeno biológico e com isso as bases para uma aprendizagem “tipicamente humana, lastreada numa teoria interativista”, segundo Augusto de Franco.

O ser vivo encontra-se, em suas circunstâncias, vivendo interações recorrentes. Maturana vê a aprendizagem como um processo de adaptação, de acomodação e de acomodação a uma circunstância diferente daquela em que o organismo dela – criança – se encontrava originalmente.

Maturana sustenta que aprender é mudar com o mundo. O aprendizado é sempre o resultado de mudanças. Aprendemos todo o tempo e se pararmos de aprender, morremos. Aprender é como respirar.

Em outro texto falaremos sobre aprendizagem ou deriva ontogênica, nos conceitos de Maturana, desenvolvidos pelo pensador Augusto de Franco.

Uma sugestão para começar

Para os educadores começarem a entender o pensamento de Humberto Maturana, um bom livro é “A árvore do conhecimento”. É a obra constitutiva do seu pensamento epistemológico. (https://drive.google.com/drive/folders/1OL5MQUaC7lnYONrRc8V5hh1yupCX-prv)

Outro texto excepcional e que precisa ser conhecido é “Conversações Matrísticas e Patriarcais”, que forma a primeira parte do livro de Humberto Maturana e Gerda Verden-Zoller (1993) intitulado Amar e Brincar: Fundamentos esquecidos do humano, traduzido e publicado no Brasil pela Palas Athena Editora (São Paulo: 2009).[3]

Abaixo seguem outras sugestões de leitura. De qualquer forma, meu caro educador, o pensamento de Humberto Maturana merece um espaço especial na sua vida e na sua formação.

Alguns livros: https://drive.google.com/drive/folders/1OL5MQUaC7lnYONrRc8V5hh1yupCX-prv

Textos diversos: 

MATURANA, Humberto (2004): Entrevista para revista Humanitates

MATURANA, Humberto et all. (2009): Matriz Ética do Habitar Humano

MATURANA, Humberto, DAVILA, Ximena, MUÑOZ, Ignacio & GARCÍA, Patrício (2009): Sustentabilidade o armonía biológico-cultural de los procesos?

MATURANA, Humberto (1993?): A democracia é uma obra de arte

MATURANA, Humberto e PÖRKSEN, B. (2004): Del ser ao hacer

MATURANA, Humberto e DÁVILA, Ximena (2003): Biologia del Tao y el Camino del Amar

MATURANA, Humberto (2002): Emoções e linguagem na educação e na política

MATURANA, Humberto (2001): Cognição, ciência e vida cotidiana

MATURANA, Humberto (1999): Transformación en la convivencia

MATURANA, Humberto (1993): Conversações matrísticas e patriarcais

MATURANA, Humberto (1993): Conversações Matrísticas e Patriarcais online | Apresentação e Introdução | 1 – O que é uma cultura? | 2 – Mudança cultural | 3 – Cultura matrística e cultura patriarcal | 4 – O emocionar | 5 – Origem do patriarcado (parte 1) | 5 – Origem do patriarcado (parte 2) | 6 – A democracia | 7 – Reflexões éticas finais

MATURANA, Humberto (1992): El sentido de lo humano

MATURANA, Humberto (1985): Desde la biologia a la psicologia

MATURANA, Humberto (1985): Biologia del fenómeno social

MATURANA, Humberto (1988): Ontologia del conversar

MATURANA, Humberto (1987): Biology of language

MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco (1984): El Árbol del Conocimiento

MATURANA, Humberto & VARELA, Francisco (1984): A árvore do conhecimento

MATURANA, Humberto (1982): Aprendizaje o deriva ontogénica

MATURANA, Humberto (1982): Reflexões: Aprendizagem ou consequência ontogenética

MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco (1973): De máquinas y seres vivos. Autopoiesis: la organización de lo vivo

[1] A Cibernética incluiu o observador no sistema observado e passou a demandar uma epistemologia complexa que não separasse o sujeito do objeto e a cognição do processo de viver. É a ciência que estuda os sistemas de controle dos organismos vivos e máquinas em geral, e que compreende a ideia de retroalimentação positiva e negativa (Wiener, op. cit. 1988), ou seja, esses sistemas têm as características da circularidade (ou feedback que mostra a capacidade de um sistema em manter-se em equilíbrio diante das variações do meio), a autorregulação e autopoiese. A autopoiese é o processo de auto-organização aplicado aos sistemas cognitivos e biológicos (Maturana & Varela, 1980).

[2] https://drive.google.com/drive/folders/1OL5MQUaC7lnYONrRc8V5hh1yupCX-prv

[3] http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana/page/conversacoes-matristicas-e-patriarcais-apresentacao-e-introducao

http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana/page/conversacoes-matristicas-e-patriarcais-1-o-que-e-uma-cultura

http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana/page/conservacoes-matristicas-e-patriarcais-2-mudanca-cultural

http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana/page/conversacoes-3-cultura-matristica-e-cultura-patriarcal

http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana/page/conversacoes-4-o-emocionar

http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana/page/conversacoes-4-o-emocionar

http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana/page/conversacoes-5-origem-do-patriarcado-2

http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana/page/conversacoes-6-a-democracia

http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana/page/conversacoes-7-reflexoes-eticas-finais

http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana/page/uma-teoria-da-cooperacao-baseada-em-maturana

 

Fontes:

MATURANA, H. Uma nova concepção de aprendizagem. Belo Horizonte: Revista Dois Pontos. Outono/inverno 1993.

MATURANA, H. VARELA, Francisco. A Árvore do Conhecimento. São Paulo: Editora Palas Athena. 2001.

FRANCO, Augusto. Ainda sobre a aprendizagem tipicamente humana, disponível em https://medium.com/@augustodefranco/ainda-sobre-a-aprendizagem-tipicamente-humana-b88b73c2df40

Sites:

http://humana.social/wp-content/uploads/2018/09/Para-onde-vai-a-educacao-09-Maturana.pdf

http://escoladeredes.net/group/bibliotecahumbertomaturana