Durante a pandemia haverá menos mortes se houver mais isolamento. Até os economistas concordam: primeiro a vida, a emergência sanitária, e depois a economia, pelo menos até o pico da transmissão, para que gradualmente as atividades possam voltar.

Enquanto isso, os governos terão que fazer uma grande rede protetiva para as pessoas mais vulneráveis da sociedade.

O que não é possível, de maneira irresponsável, é defender ritmo quase normal da economia. Isso desenvolveria uma imunização coletiva mais rápida, protegeria a economia, mas levaria os mais idosos e vulneráveis para a morte, numa tragédia ainda mais imprevisível, numa espécie de darwinismo social e sanitário.

Quem pode morrer e quem pode viver? Isso pode ser decidido por governantes pensando na economia? Dá para ficar restrito à ideia de “economicamente ativo” e esquecermos daqueles que são também social e culturalmente ativos?

Enquanto escrevia essas reflexões, por curiosidade, fui pesquisar os vencedores do Prêmio Nobel de 2019. Dos 15 vencedores, 9 eram idosos, alguns bem idosos!

Por ordem etária: William Kaelin Jr. (Prêmo Nobel de Medicina), 62 anos; Gregg Semenza (medicina) 63 anos; Peter Ratcliffe (medicina) 65 anos; Akira Yoshino (química), 72 anos; Peter Handke (literatura), 77 anos; Michael Whittingham (química), 78 anos; Michel Mayor (física), 78 anos; Phillip James Edwin Peebles (física), 84 anos e John Goodenough (física), com os seus incríveis 97 anos.

Um simples exemplo mostra a importância social para além do conceito reducionista de “economicamente ativo”. Mesmo que velhinhos e doentes, todos somos sociais, culturais e economicamente ativos.

Todos somos importantes para a sociedade. Ninguém é uma ilha isolada. Somos interconectados e estamos ligados numa grande rede social. Precisamos de união.

Quando o escritor Ernest Hemingway escreveu sobre a guerra civil espanhola e o terrível drama de uma sociedade que se autodestruía, ele se inspirou no último verso do poema do inglês John Donne para dar nome ao seu romance: “Por quem os sinos dobram”.

Com forte emoção fui buscar o livro na estante para transcrever o poema. Ei-lo aqui:

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é um pedaço do continente, uma parte do todo. Se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa do teu amigo ou a tua própria. A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.