A teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner

Howard Gardner (1943 -) é educador e psicólogo da Universidade Harvard, dos EUA e um dos mais conhecidos pensadores da educação do final do século XX. Ele publicou diversos livros sobre neuropsicologia e desenvolvimento cognitivo. É defensor da teoria das inteligências múltiplas e o seu livro Frames of Mind: The Theory of Multiple Intelligences deu-lhe notório reconhecimento em todo o mundo.
Segundo ele a inteligência não é medida somente pelo raciocínio lógico-matemático (como a de um cientista), mas também por outros tipos de inteligência: musical (de um compositor), espacial (a de um piloto de avião), linguística (como a de um poeta), interpessoal (de um professor), corporal (como a de um jogador de futebol), intrapessoal, naturalista e existencial.
Na atualidade Gardner tem um novo foco de pensamento, baseado naquilo que ele chama de cinco mentes para o futuro, destacando-se a ética. Segundo ele “o planeta não vai ser salvo por quem tira notas altas nas provas, mas por aqueles que se importam com ele”.

A seguir trechos relevantes, ligados à educação, de entrevistas que ele deu .

01 – Algumas pessoas são mais inteligentes do que outras ou elas desenvolvem a inteligência durante a vida?
Ambos. Isto é, nós não temos todos o mesmo potencial em cada tipo de inteligência. Mozart tinha mais potencial em inteligência musical do que eu tenho, e esse potencial é determinado geneticamente.
Por outro lado, você pode ter todo o potencial do mundo, mas, se não tiver oportunidades de aprendizagem, motivação, bons professores, você não vai desenvolvê-lo. Mozart não só tinha mais potencial, como tinha um pai que trabalhava com ele 20 horas por dia.

02 – As pessoas podem equilibrar as inteligências?
Podem. Mas embora a motivação para isso seja importante, os recursos disponíveis e a habilidade do professor são mais importantes. Para desenvolver minha inteligência musical eu dependo principalmente de ter bons professores.

03 – Como sua teoria pode ser incorporada às propostas pedagógicas?
No livro Multiple Intelligences Around the World (lançado em 2009) lançado este ano, diversos autores descrevem como implementaram minhas ideias. Enfatizo duas delas: a primeira é a individualização. Os educadores devem conhecer ao máximo cada um de seus alunos e, assim, ensiná-los da maneira que eles melhor poderão aprender. A segunda é a pluralização. Isso significa que é necessário ensinar o que é importante de várias maneiras – histórias, debates, jogos, filmes, diagramas ou exercícios práticos.

04 – Como fazer a individualização do ensino numa sala com 40 estudantes?
Realmente é mais fácil individualizar o ensino numa sala com dez crianças e em instituições ricas. Mas, mesmo sem essas condições ideais, é possível: basta organizar grupos formados por aqueles que têm habilidades complementares e ensinar de modos diferentes. Se o professor entende a teoria, consegue lançar mão de outras formas de trabalhar – como explorar o que há no entorno da escola. Se ele acredita que só com equipamentos caros vai conseguir bons resultados em sala de aula, não entendeu a essência do pensamento.

05- A lista de conteúdos está cada vez maior. Como dar conta do programa e ainda variar a metodologia?
É um erro enorme acreditar que por termos mais a aprender, necessitamos ensinar mais. A questão central é que várias coisas que antes tinham de ser memorizadas agora estão facilmente disponíveis para pesquisa. Colocar uma quantidade cada vez maior de informação na cabeça da garotada é um desastre. Infelizmente, essa é uma prática comum em diversos cantos do mundo. Depois de viajar muito, posso afirmar que o interesse de diversos ministros da Educação é apenas fazer com que seu país se saia bem nos testes internacionais de avaliação. E isso é ridículo.

06 – Qual a sua avaliação sobre a Educação brasileira?
Acredito que, se o Brasil quer ser uma força importante no século 21, tem de buscar uma forma de educar que tenha mais a ver com seu povo, e não apenas imitar experiências de fora, como as dos Estados Unidos e da Europa. O país precisa se olhar no espelho, em vez de ficar olhando a bússola.

07 – Os testes de QI sofreram muitas críticas de sua parte. Por quê?
A maior parte dos testes mede a inteligência lógica e de linguagem. Quem é bom nas duas é bom aluno. Enquanto estiver na escola, pensará que é inteligente. Porém, se decidir dar um passeio pela cidade, rapidamente descobrirá que outras habilidades fazem falta, como a espacial e a intrapessoal – a capacidade que cada um tem de conhecer a si mesmo, fundamental

08 – O livro Cinco Mentes para o Futuro aborda as características essenciais a ser desenvolvidas pelos humanos. Como isso se relaciona com as inteligências múltiplas?
As cinco mentes não estão conectadas com as inteligências e são possibilidades que devemos nutrir. A primeira é a mente disciplinada – se queremos ser bons em algo, temos de nos esforçar todos os dias. Isso costuma ser difícil para os jovens, que mudam rapidamente de uma tarefa para outra. Essa mente pressupõe ainda a necessidade de compreender as formas de raciocínio que desenvolvemos: histórica, matemática, artística e científica. O problema é que muitas escolas ensinam somente fatos e informações.

09 – Como lidar com o excesso de informações a que temos acesso hoje?
GARDNER Essa capacidade é dominada por um segundo tipo de mente, a sintetizadora. Ela nos aponta em que prestar atenção e como os dados podem ser combinados. É preciso ter critério para fazer julgamentos e saber como comunicar-se de forma sintética. Para os educadores, era mais fácil sintetizar quando usavam-se apenas um ou dois livros.

10 – Qual é o terceiro tipo de mente?
A criativa. Ela levanta novas questões, cria soluções e é inovadora. Pessoas desse tipo gostam de se arriscar e não se importam de errar e tentar de novo. Essa é a mente que pensa fora da caixa. Mas você só consegue isso quando tem uma caixa: disciplina e síntese. Por isso, o conselho que dou é dominar a disciplina na juventude para ter mais tempo de ser criativo.

11 – Está sendo implementada no Brasil a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que provavelmente vai acarretar uma grande mudança dos currículos escolares no país. Um dos pontos é o fato de a Base estabelecer, como dez competências fundamentais, competências socioemocionais. Como o senhor vê o desenvolvimento de habilidades socioemocionais na educação?
Tanto o desenvolvimento da “ bondade” quanto o desenvolvimento socioemocional tendem a ser maiores nos contextos em que os adultos e as crianças mais velhas adotam bons comportamentos e boas atitudes.
Uma pessoa pode ter feito todos os exercícios possíveis e podem existir regras para tudo, mas, se elas não vivenciarem no dia a dia – na escola, no pátio da escola, nas lojas, nas instituições religiosas, na mídia (inclusive nas redes sociais) – , o “discurso” faz pouca diferença. Eu sempre uso a seguinte frase: “as crianças podem ouvir ou não o que você diz, mas elas sempre vão perceber o que você faz”. E eu acrescentaria, o que você NÃO faz.

12 – Há cerca de 30 anos, o senhor foi um dos pioneiros a falar sobre a inteligência de uma maneira ampliada, o que teve um importante efeito na maneira como as pessoas enxergam e compreendem a inteligência e a educação. Como o senhor vê os desenvolvimentos da Teoria das Inteligências Múltiplas na educação em seu país e em outras partes do mundo?
Sem dúvida, o meu trabalho e o de colegas como Daniel Goleman (autor de Inteligência emocional) afetaram como os educadores lidam com seu trabalho e com seus alunos. Não é mais possível defender que existe apenas uma maneira de ser inteligente.
Eu diria que nós tivemos uma influência enorme nas práticas, o que fica evidente no livro Múltiplas inteligências ao redor do mundo, que publiquei em parceria com Seana Moran. Nessa obra, 42 educadores de 15 países em cinco continentes escreveram sobre como suas práticas foram modificadas pela teoria das Inteligências Múltiplas.
Museus, bibliotecas e parques temáticos foram criados a partir da ideia de inteligências múltiplas, e frequentemente fico sabendo de escolas que recebem o meu nome ou que incluem o termo “inteligências múltiplas” no nome. Muitas dessas escolas e organizações reportam aumento da motivação dos estudantes e, às vezes, melhoria dos resultados individuais ou da própria escola. No entanto, não costumo acompanhar em detalhe como são esses experimentos ou se eles perduram.
Então, sinto-me mais seguro para afirmar que minhas ideias modificaram mais como as pessoas pensam do que como suas práticas foram afetadas. Por exemplo, eu sugiro que os professores “individualizem” tanto quanto possível, ou seja, que eles procurem conhecer ao máximo o estudante e ensinar a ele de uma maneira que faça sentido, levando-o a desenvolver seu próprio entendimento – claro que isso é mais fácil de fazer numa era altamente tecnológica.
Eu também sugiro que o educador “pluralize”, quer dizer, decida o que realmente é importante e ensine essa ideia ou conceito de várias maneiras, alcançando, portanto, as diversas inteligências. A “pluralização” pode ser praticada em qualquer ambiente educacional, se o professor tiver um aluno ou se ele tiver mil alunos. E, novamente, é mais fácil fazer isso numa era altamente tecnológica.

13 – Quais são as perspectivas para o futuro, na sua visão, considerando o aumento da influência da tecnologia e das máquinas nas nossas vidas? O que é ser humano nesse contexto?
Nenhuma máquina ou tecnologia controla o que fazemos. Um lápis pode ser usado para cegar uma pessoa ou para escrever um belo poema. Da mesma maneira, a inteligência artificial e virtual pode ser usada para curar doenças ou para desenvolver armas nucleares.
Obviamente, é melhor que as máquinas nos ajudem a construir um mundo bom, em vez de um mundo destrutivo. Depende de nós e das próximas gerações decidir se as máquinas serão amigas, inimigas ou parceiras.

Fontes:
Respostas 01 e 02, entrevista de 2009, Folha de S. Paulo, fonte: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff210720.htm
Respostas 03 a 10, entrevista de 2009, Nova Escola: https://novaescola.org.br/conteudo/880/howard-gardner-e-dificil-fazer-o-certo-se-isso-contraria-os-nossos-interesses
Respostas 11 a 13, entrevista 2018 para a Revista Educação: https://revistaeducacao.com.br/2018/10/22/teoria-das-inteligencias-multiplas/