O sociólogo português Boaventura de Souza Santos conta que na Ilha de Moçambique, em Moçambique, na África, há uma estátua de Luís de Camões colocada no tempo colonial. Com o movimento de independência do país, em 1975, a estátua foi retirada e guardada num galpão.

Por incrível coincidência, por anos a fio a ilha ficou sem chuva, e então os sábios da ilha chegaram à conclusão de que a falta de chuva talvez se devesse à retirada da estátua. Pediram às autoridades e a estátua foi reposta no seu lugar de origem.

Até hoje lá está a estátua de Camões, olhando para o mar e trazendo chuva. O local é um dos pontos turísticos da ilha.

Com o movimento “vidas negras que importam” muitas estátuas, principalmente de escravagistas, estão sendo destruídas ou danificadas em protestos coletivos. Tudo isso como reação ao assassinato covarde do negro Georges Floyd por um policial branco nos Estados Unidos.

Cada época pode questionar as homenagens. Mas há um exagero e não me parece haver justa causa para a destruição de estátuas. Se por um lado o racismo é gravíssimo, não podemos apagar o passado. Essas estátuas atacadas podem ser de pessoas que fizeram mal ou praticaram atrocidades no passado, mas são parte da história. Precisam ser lembradas, estudadas e questionadas pelo que essas pessoas foram e fizeram.

É claro que não precisamos tratar protagonistas bárbaros como se fossem heróis, em locais de pompa. Essas estátuas devem ser transferidas para museus ou locais próprios de visitação. Mas jamais devem ser destruídas. Fazem parte do patrimônio público e histórico de determinada sociedade.

Não se pode apagar o passado. O que se deve, é aprender com o passado e olhar para o futuro procurando homenagear os heróis desconhecidos ou marginalizados, como os negros, as mulheres e os povos indígenas.

As injustiças do passado e que permanecem no presente, como o racismo e as formas de dominação patriarcal e colonial, devem ser enfrentadas com os meios possíveis, com lutas e Educação, para mudar o futuro. Mas sem apagar o passado.